quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

IMAGENS FATAIS

A avaliar pelas múltiplas notícias que nos últimos dias têm referido a famigerada questão da produtividade nacional restará alguma dúvida a alguém que estamos a entrar naquela delicada fase do ano em que patronato e sindicatos negoceiam os aumentos salariais?

É que para os que o duvidem, a AIP (Associação Industrial Portuguesa) acabou de publicar o seu Relatório da Competitividade 2009 e, como não podia deixar de ser a conclusão que o ECONÓMICO de pronto deu à estampa foi a que os «Portugueses produzem menos 30%que os europeus», confirmando, se preciso fosse, as declarações de Silva Lopes de que «Os aumentos de salários são fábricas de desemprego», citadas há dias pelo JORNAL DE NEGÓCIOS. Na cerimónia de apresentação do relatório da AIP, o seu presidente, Rocha de Matos, não perdeu a oportunidade de referir aquele que apontou como «…o indicador mais crítico e que nos envergonha…», uma «…produtividade que apresenta um valor de 70,8% da média da UE em 2008»[1].

Podia retomar aqui algumas das observações que já produzi sobre esta matéria[2], mas julgo muito mais útil e bem revelador do que tenho afirmado a visualização das imagens com que o canal público de televisão fez acompanhar a peça que hoje dedicou ao assunto[3]. Mais do que qualquer argumentação ou até tentativa de explicação do sofisma, bastou ver as imagens das mulheres que cortavam à tesoura a cabeça das sardinhas que usavam para encher manualmente as latas de conserva para todos ficarmos com uma claríssima imagem da origem da baixa produtividade dos trabalhadores portugueses.

Palavras para quê… os ditos empresários portugueses continuam a não passar de artistas de fraca categoria que esperam todo o tipo de apoios, auxílios e investimentos do Estado (veja-se o conteúdo da página 9 do referido Relatório da Competitividade) que lhes assegure o funcionamento das empresas (as tristes empresas) nas quais se recusam a investir os seus capitais pessoais para as dotarem de meios tecnológicos adequados aos tempos actuais e que nos possibilitem a todos alcançarmos a produtividade consentânea.
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[1] As citações foram extraídas do discurso de Rocha de Matos que pode ser lido aqui.
[2] Entre as mais recentes recordo os “posts” intitulados «LIÇÕES DAGRANDE DEPRESSÃO» e «CANTOS NOVOS, RUMOS VELHOS», mas principalmente um mais antigo intitulado «SOBRE A PRODUTIVIDADE».

[3] Veja aqui o vídeo da notícia.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

MUROS VELHOS, MUROS NOVOS

Comemoraram-se os 20 anos da queda do Muro de Berlim.

Quase uma geração volvida, continuam por derrubar os muros físicos na Palestina, na Irlanda, em Chipre e na Coreia enquanto persistem um pouco por todo o lado os muros (aparentemente bem mais resistentes que os de betão) da intolerância e da incompreensão que separam Estados, povos e pessoas.
Mesmo assim (ou por isso mesmo…) houve grande aparato mediático em Berlim e o evento foi notícia em tudo o que é jornal e televisão. Sucederam-se os comentários e as reportagens de ocasião, com o desfilar dos que assistiram e dos que dizem que assistiram… O Mundo mudou na opinião de uns, ou não, na opinião de outros, mas certo… certo é que a uniformização de hábitos e costumes (a famigerada “american way of life”) expandiu-se ainda mais à custa da “abertura” do Leste europeu e a identidade dos povos vai-se diluindo entre McDonalds e Starbucks (com a ajuda de regras impostas e das ASAE’s) ou então eclode em reacções violentas e tantas vezes mais prejudiciais que úteis.
Tal como se recorda em cada aniversário de outros eventos igualmente fracturantes, nem sempre o Mundo ficou melhor…

domingo, 8 de Novembro de 2009

FACES OCULTAS

Embora seja inegável que o acontecimento nacional dos últimos dias – até pela abundância de notícias, comentários e “ruído” que à sua volta se está a erguer – foi o despoletar da chamada Operação Face Oculta, reveladora que a hidra da corrupção continua a crescer e a encontrar nos meandros económicos e políticos o ambiente adequado ao seu desenvolvimento, a memória de outros casos envolvendo o triângulo dos poderes jurídico, político e económico aconselha uma moderação em baixa das expectativas quanto a uma efectiva denúncia e condenação dos flagelos anunciados.

Veja-se, a título de exemplo, em que resultaram processos como a Operação Furacão, o “Caso dos Submarinos”, o “Caso Freeport”, o “Caso Portucalle”, o “Caso Moderna”, para não falar no não menos mediático e polémico “Caso Casa-Pia” e compreenda-se que as expectativas em torno de mais um caso têm que ser forçosamente reduzidas. A manter-se a lusa tradição (e nada aponta para que este caso seja diferente) este será mais um “caso” para se arrastar nos tribunais, entre chicanas processuais e artifícios e malabarismos jurídicos (prática financeiramente conveniente para causídicos e donos de jornais e juridicamente útil para os acusados que sempre podem invocar a barbaridade dos “julgamentos na praça pública”), do qual o tardio resultado (quando e se surgir) será uma pálida imagem e certamente uma já muito mitigada sanção de reduzido ou nulo efeito formativo para os mais jovens.
Embora entre nós seja habitual referirmos a lentidão da justiça e denunciarmos a impunidade daqueles que actuam impunemente acima da lei, importa não esquecer que em última instância tal responsabilidade cabe-nos a todos. Enquanto continuarmos a confiar a gestão da coisa pública ao mesmo grupo de políticos e gestores que nas últimas décadas têm surgido envolvidos em escândalos recorrentes, poderemos esperar alguma alteração do infecto ambiente em que todos vivemos?

Que outra perspectiva poderemos ter senão a da visão da mesma cloaca? agravada ainda pelo facto deste tipo de situação se repetir um pouco por todos os lados.

Vejam-se casos como o processo Gurtel[1], que envolve o destacadas figuras do PP espanhol num esquema mais ou menos generalizado de corrupção, a recente decisão dum tribunal francês de levar a julgamento o ex-presidente Jacques Chirac por suspeita de envolvimento num caso de desvio de fundos públicos[2], ou as recentes declarações,que fizeram manchete no LE MONDE, do ministro dos negócios estrangeiros francês, Bernard Kouchner, sobre o reeleito presidente afegão: «Karzai é um corrupto, mas temos que trabalhar com ele»[3]; destes se pode concluir que um pouco por todo o lado ruíram as noções de decência e de ética, passando a louvável uma política do tipo “vale tudo” desde que seja em benefício dos nossos interesses.

De acordo com notícias recentes[4], esta prática, altamente lesiva do interesse colectivo representará na vizinha Espanha um negócio superior ao tráfico de narcóticos (cerca de 4 mil milhões de euros na última década) e constitui ainda um importante factor de distorção económica, pelo que não seria de espantar vê-lo incluído entre as razões apontadas para o afugentar do investimento estrangeiro em Portugal, embora o último relatório da consultora Ernst&Young (citado nesta notícia do PUBLICO) apenas refira as ineficiências dos sistemas judicial e fiscal.

O sentimento generalizado entre a população e o avolumar dos casos (que apenas confirma aquela ideia), comprovando a disseminação, entre dirigentes e dirigidos, de uma cultura de facilitismo e laxismo não pode ter sido apenas produto da expansão económica e da ideia (velha) de que “quem tudo tem tudo pode”, mas fruto de um conjunto de estratégias (intencionais e bem planeadas, na opinião de uns, e fortuitas, na opinião de outros) entre as quais terá sido determinante a constante degradação dos padrões educativos e a erosão de valores deontológicos.

A inversão desta realidade, difícil de antever na actual conjuntura mas indispensável se quisermos assegurar algum futuro às gerações vindouras, terá que começar pela recusa da ideia que a «corrupção é uma crise das sociedades desenvolvidas»[5] ou uma fatalidade dos regimes democráticos e continuar como uma exigência de cada um de nós relativamente àqueles que elegemos.
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[1] De que esta notícia do EL PAIS é um exemplo e que se refere ao nome dado a uma investigação iniciada em Fevereiro de 2009 pelo juiz Baltasar Garzón e destinada a desmantelar uma presumível rede de corrupção ligada ao Partido Popular (PP) e onde o empresário Francisco Correa é figura de proa.
[2] A notícia do LE MONDE pode ser lida aqui.
[3] O texto original da notícia do LE MONDE pode ser lido aqui.
[4] Os exemplos são esta notícia do DN e esta do PUBLICO.
[5] Como afirmou o ex-Procurador Geral da República à RÁDIO RENASCENÇA.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

REALPOLITIK[1]

Todos sabemos há muito que não raras vezes a razão de Estado se sobrepõe à Razão pura.

Mas talvez poucas vezes a expressão «há razões que a Razão desconhece» terá feito tanto sentido como no momento em que li a notícia da TSF anunciando que os «Estados Unidos felicitam Karzai por ”eleição histórica”», quando é conhecido o seu envolvimento (directo ou indirecto) na fraude eleitoral e no comércio do ópio e depois de na véspera e com pouca horas de intervalo, ter lido no PUBLICO que «Abdullah ameça boicotar eleições afegãs», para logo a seguir ficar a saber que «Abdullah não vai participar nas eleições afegãs».

As pressões ocidentais e a “realpolitik” poderão ter levado o candidato Abdullah Abdullah a abandonar a segunda volta de um processo eleitoral que os próprios observadores da ONU anteviam tão fraudulenta quanto a primeira o fora[2], mas daí a saudar o resultado como uma “eleição histórica” só por manifesta hipocrisia, pois não servirá nem como subterfúgio para escamotear o atoleiro político-militar em que a região se está a transformar[3].

Nem no mais recôndito canto do Afeganistão alguém atribuirá o mínimo crédito a declarações daquele jaez, pelo que a pergunta sobre quem procurará a administração Obama enganar? carece de ser formulada.

Haverá alguém tão distraído ou tão tendencioso que atribua um mínimo de valor a uma afirmação só comparável à daqueles que afirmam que o Estado de Israel é a luz da Democracia no Médio Oriente!

Mesmo que se queira respeitar a opinião das pessoas, há afirmações cuja gravidade e total ausência de probidade ultrapassa em muito o que se possa admitir como opinião aceitável e, pior, constituem mais uma oportunidade para o descrédito de quem as emite do que como manifestação dessa tal “realpolitik” em cujo nome terão sido proferidas.

O tempo acabará por demonstrar os efeitos que mais este incidente terá no desenrolar da acção da NATO no Afeganistão, mesmo que para já continuem apenas a suceder-se os sangrentos atentados a que temos assistido e de que as populações civis acabam a ser os principais atingidos, e se não terá acabado por destruir a já insignificante credibilidade que os responsáveis por aquela acção militar persistem em se atribuir.
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[1] Expressão de origem alemã (resulta da junção do termo real (no sentido de "prático" ou "actual") e Politik ("política"); refere-se a um tipo de políticas ou práticas diplomáticas baseadas principalmente em considerações práticas e em detrimento de noções ideológicas. O termo teve origem na política alemã seguida no tempo de Metternich (diplomata e estadista conservador que ao serviço dos Habsburg foi o grande responsável pela reorganização política da Europa no período pós-napoleónico) e conheceu novo fulgor com a chegada de Henry Kissinger à administração de Richard Nixon e a situação que os EUA viviam com a Guerra do Vietname.
[2] A título de confirmação vejam-se estas notícias do DIÁRIO DIGITAL, do CORREIO DA MANHÃ e da agência AFP.
[3] Exemplos disso são as notícias que dão conta do acréscimo do número de baixas (como esta do JORNAL DE NOTÍCIAS) ou as que informam sobre mudanças de estratégia e de reforços de tropas (como esta do PUBLICO ou esta do DIÁRIO DE NOTÍCIAS).

sábado, 31 de Outubro de 2009

RECESSÃO OU RECUPERAÇÃO?

Quando a Europa se debruça sobre a delicada questão da escolha do futuro presidente da UE (agora que as dúvidas sobre a aplicação do Tratado de Lisboa, se alguma vez as houve, estão totalmente dissipadas), a NATO atravessa a fase mis delicada e mortífera da sua presença no Afeganistão, a generalidade do Médio Oriente vive mais uma fase de recrudescimento da violência bombista (raros têm sido os dias sem notícias de novos e mortíferos atentados no Iraque, no Afeganistão ou no Paquistão), como não escolher para reflexão a notícia que recentemente saltou para a ribalta, anunciando o fim da recessão nos EUA[1].

Com maiores ou menores encómios a generalidade dos meios de comunicação não deixou de embandeirar em arco perante a primeira variação trimestral positiva do PIB americano desde o segundo trimestre de 2008; fazendo fé nos títulos de notícias, como a publicada pelo I, de que a «Economia dos EUA cresce já ao ritmo anual de 3,5%», ou a publicada pelo PUBLICO, que diz que a «Economia dos EUA sai da recessão e cresce 3,5 por cento no terceiro trimestre», poder-se ia inferir que a crise estaria resolvida, porém de uma leitura mais atenta do conteúdo destas notícias e de outras (como esta do LE MONDE) ressalta uma outra realidade.

Primeiro, a taxa de crescimento anunciada para a economia norte-americana é uma taxa anualizada (qualquer coisa de parecido com dizer-se que o crescimento verificado resultaria naquele valor se se verificasse ao longo de doze meses) pelo que o valor real da variação terá rondado os 0,9%. Não é que este valor seja irrelevante, mas é inegável que não tem o mesmo impacto que o número anunciado.

Segundo, o crescimento agora verificado (seja anunciado em termos anuais ou não) representa um crescimento muito inferior ao das quedas registadas nos trimestres anteriores, o que em termos práticos significa que a economia recuperou muito pouco do muito que caiu.

Terceiro, a variação registada num trimestre pode ou não repetir-se nos períodos seguintes, facto tanto mais reconhecido que normalmente só se afirma que uma economia está em situação de recessão quando o decréscimo se repete durante pelo menos dois períodos (aquilo que normalmente se designa por recessão técnica), pelo que a euforia deverá ser adiada até à confirmação ou à negação da tendência agora evidenciada.

Mesmo que se considere natural a forma pronta como a administração Obama já veio lembrar que estes resultados demonstram a justeza das suas políticas anti-recessivas, nem por isso o próprio presidente deixou de assinalar que ainda existe um longo caminho a percorrer até a completa recuperação da economia, como referiu a BBC NEWS nesta notícia.

Mas o mais curioso destas leituras é que os próprios jornais publicam a par destas outras notícias que continuam descrever o estado cada vez mais calamitoso do emprego ou, como o faz o ECONÓMICO, anunciando que os «Banqueiros esperam bónus recorde em 2009». Embora aparente, não existirá grande contradição nestas notícias porque se trata de retratar na prática realidades muito diferentes.

As notícias sobre os crescimentos ou as retracções do PIB (e doutros indicadores económicos) constituem abordagens de carácter técnico e são basicamente oriundas de trabalhos estatísticos que não raras vezes parecem distantes do dia-a-dia que vivemos. As que reportam o encerramento de empresas e o número de trabalhadores despedidos ou a despedir, resultam da realidade empresarial que pode ser tão diversa quão díspar é a dimensão das empresas e se algumas são fruto das dificuldades das economias e da redução do consumo em geral, outras prefiguram estratégias de gestão para assegurar a manutenção ou o aumento do volume dos resultados mediante a mera redução dos custos (os mais fáceis de aplicar) e de efeito mais rápido.

Já as que dizem respeito às expectativas de ganhos dos banqueiros servirão principalmente para reforçar a ideia de que ao contrário do muito que se tem dito e escrito sobre a necessidade de reformar o sistema financeiro mundial, nada foi realmente feito nesse sentido.
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[1] Exemplo disso é esta notícia do FINANTIAL TIMES, da autoria de John Authers.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

NARAYAMA-BUSHI KÔ[1]

Com a aproximação do Dia Mundial da Terceira Idade, que hoje se assinala, e da realização de uma conferência europeia sobre pobreza e exclusão social, em Bruxelas, várias têm sido as notícias sobre o assunto. Desde a do DIÁRIO DIGITAL que, referindo um recente estudo da DECO, assegura que «40 mil idosos passam fome em Portugal por dificuldades económicas», ou a do PUBLICO que, sustentada nos dados adiantados de um estudo do Eurobarómetro, afirma que «Mais de 40 por cento dos portugueses acham que pobreza aumentou muito», mas nenhuma me impressionou tanto quanto a que o LE FIGARO publicou há dias sobre a situação da Terceira Idade no Japão.

Não que a questão dos baixos rendimentos da esmagadora maioria dos aposentados não seja um problema real (duro, desumano e injustificável), mas pior mesmo parece-me ser a quase total insensibilidade com que os poderes estabelecidos (desde o nível local até ao da UE) têm encarado o problema do envelhecimento das populações e a situação de crescente abandono em que os grupos mais idosos estão a ser obrigados a viver.

Ninguém hoje negará o facto de há muito terem morrido e sido enterradas as velhas estruturas familiares. Longe vão os tempos em que as unidades familiares constituíam uma sólida referência (moral e tantas vezes económica) para as gerações mais novas; impelidos pela necessidade de procurar trabalho (ou apenas aliciados pelas perspectivas de aparentes melhorias de vida) os jovens foram sendo desenraizados para distâncias cada vez maiores dos locais de nascimento enquanto os idosos (seja por razões culturais ou de mero hábito, por arreigada tradição ou um reconhecido medo do desconhecido) a eles permaneceram agarrados e hoje comunidades outrora vivas e dinâmicas transformaram-se em locais desertos de esperança e onde entre dificuldades crescentes se espera a morte.

E entre as dificuldades não se conta apenas os parcos recursos resultantes das baixas reformas e pensões sociais, mas também a quase completa ausência de sistemas de assistência social e até das mais elementares redes sociais.

Este cenário não é exclusivo do interior do país, pois até nas periferias dos principais centros urbanos este já começa a ser um fenómeno recorrente, seja ele originado na sobrecarga dos horários de trabalho (dos que ainda têm trabalho) seja na evidente inversão da pirâmide etária. O abandono dos mais velhos é também consequência da redução da natalidade (ainda e sempre os famigerados factores económicos e sócio-profissionais que determinaram não só a generalizada admissão das mulheres no mercado de trabalho mas também a pressão profissional que sobre elas é exercida durante o chamado período fértil) e da moderna organização do trabalho que ao invés de ter proporcionado menores tempos de trabalho resultou no prolongamento dos horários e nas exigências de disponibilidade que são impostas aos trabalhadores.

A intervenção sobre este cenário não pode ser deixada à responsabilidades dos mais jovens, seja pela urgência seja pelo facto destes poderem ainda não sentir a premência da acção, cabendo na íntegra aos que já vivem a idade activa (e vêem mais próximos os problemas) e aos quais a inércia acarretará um de duas duras realidades: definharem como agora vêem definhar os mais velhos ou prolongarem a permanência na vida activa até ao absurdo...

Mas o mesmo não se deverá dizer relativamente aos governos e aos poderes autárquicos, dos quais se deverá exigir maior intervenção e aproveitamento da conjuntura. É que esta situação de aumento do desemprego pode muito bem constituir uma excelente oportunidade para a utilização de parte da mão-de-obra dispensada para a criação de redes locais de apoio aos mais idosos e para a dinamização de estruturas de apoio aos mais jovens.
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[1] Título original do filme de Shohei Imamura (A Balada de Narayama) que retrata a tradição de uma antiga aldeia japonesa cuja crónica escassez de alimentos conduziu à instituição de uma norma, cujo não cumprimento seria vergonhoso para toda a família, que consistia em transportar os anciãos que completassem 70 anos até ao topo de uma montanha para lá morrerem.

sábado, 24 de Outubro de 2009

50º ANIVERSÁRIO DE ASTÉRIX E OBÉLIX

Numa semana plena de acontecimentos o mais marcante poderia bem ser o do anúncio do novo elenco governativo de José Sócrates – com o habitual desfile de entradas saídas de ministros, as manifestações de júbilo dos escolhidos ou o ranger de dentes dos preteridos -, a decisão do jovem Jean Sarkozy[1] (segundo filho do inefável Nicolas Sarkozy) de abdicar da candidatura ao lugar de presidente do EPAD[2] mas não a um lugar no conselho de administração, ou o desenrolar do rocambolesco “affaire” Clearstream[3]; porém o que me parece digno de assinalar foi o lançamento de mais um álbum da saga Astérix e Obélix (diz-se que o último realizado por um dos seus criadores ainda vivo) coincidente com a comemoração do cinquentenário da publicação da primeira história, na revista PILOTE.

A edição de 3 milhões de exemplares ocorreu simultaneamente em 15 países (Portugal incluído), o que constitui por si só facto marcante no mundo editorial; no mesmo mês que viu há cinquenta anos o seu “nascimento” numa das revistas juvenis mais vendida da época e que então era dirigida por René Goscinny, o já falecido autor dos melhores argumentos das aventuras e desventuras da irredutível aldeia gaulesa e dos seus principais guerreiros, que durante a sua curta existência (faleceu em 1977 com 51 anos) produziu algumas das melhores páginas da banda desenhada francesa e mundial, que além dos bem conhecidos Astérix e Obélix (produzidos para o desenho de Albert Uderzo), foi ainda argumentista de alguns dos melhores álbuns de Lucky Luke, que Morris desenhou, dos álbuns de Iznogoud, desenhados por Tabary, e do fabuloso Petit Nicolas (com desenhos de Sempé) que por alguma razão são actualmente presença obrigatória nos escaparates das livrarias de Paris.

A importância desta edição ultrapassa em muito o simples assinalar de um aniversário pois insere-se no que se pode designar como uma mais que justa homenagem a um prolífico autor, que além das figuras de Astérix e Obélix nos legou páginas e páginas ora de humor delicioso ora da mais verrinosa crítica social e de costumes, que será complementada com a inauguração no próximo dia 29 de uma exposição no Musée de Cluny (bem no coração de Paris) onde serão apresentadas pela primeira vez três dezenas de pranchas originais.

Infelizmente a qualidade do produto apresentado por Albert Uderzo pouco se distingue da das suas anteriores tentativas a solo, agravado ainda no caso português pela opção da actual editora de aportuguesar os nomes dos personagens secundários.

Depois da promessa inicial, mas rapidamente abandonada, deixada pela perspectiva de vermos os personagens envelhecidos cinquenta anos e descontadas as quatro páginas onde Uderzo aproveita muito bem os “pastiches” de Delacroix, Da Vinci, David e Arcimbold, salva-se (por que será?) um texto de Goscinny – O Guia de Viagens Coquelus[4] – anteriormente publicado na revista PILOTE e acompanhado de tiras de antigos álbuns do duo, com especial destaque para «A Volta à Gália».

O trabalho que mantém a clareza do traço de Uderzo mas ao qual continua a faltar o toque especial de Goscinny merece ainda duas breves referências. Uma para o texto introdutório de Anne Goscinny do qual não resisto a destacar as primeiras linhas: «Na tua voz, Astérix, ressoa o timbre da minha. Nas minhas veias corre a tua tinta, nas tuas corre o meu sangue» e outra para a referência, na última página, feita por Uderzo à dupla Frédéric e Thierry Mébarki, que prefigura uma forma de passagem de testemunho, pois estes dois irmãos têm assegurado nos últimos 25 anos uma preciosa colaboração na produção dos álbuns. Aos futuros desenhadores de Astérix resta desejar a sorte de encontrarem rapidamente um argumentista à altura de René Goscinny.

Ele, e os personagens que criou, merecem-no bem!
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[1] Jean Sarkozy de Nagy-Bocsa (nascido em Setembro de 1986) é filho do primeiro casamento de Nicolas Sarkozy (o actual presidente de França), conselheiro regional de Neuilly-sur-Seine (departamento que o pai Sarkozy já presidiu) e apresenta como credenciais académicas uma inscrição no primeiro ano do curso de Direito na Universidade de Paris I – Sorbonne e candidata-se ao lugar que o pai ocupou entre 2005 e 2007.
[2] EPAD é a sigla que designa o organismo público que tem por missão a gestão do parque de negócios de La Défense, em representação do estado francês e de algumas comunas do oeste de Paris; estende-se por uma área superior a 1,6 km2, gere mais de 3,5 milhões de m2 de escritórios e um orçamento superior a mil milhões de euros.
[3] Processo que actualmente se encontra em julgamento, que envolve o actual presidente da república francesa, Nicolas Sarkozy, e o anterior primeiro-ministro, Dominique de Villepin, num caso de fuga de capitais acompanhado de um rocambolesco episódio de “espionagem” financeira, no qual o primeiro acusa o segundo de ter instigado a inclusão do seu nome nas listas de personalidades envolvidas.
[4] O texto constitui uma clara paródia aos mundialmente célebres Guias Michelin, não fosse o personagem Coquelus um industrial romano fabricante rodas, no episódio O Escudo de Arverne.