terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

SOLUÇÃO DESPREZADA OU DESESPERADA?

A propósito do debate em torno da solução para a crise económica, escreveu o Prof. César das Neves, iniciando a sua última crónica no DN que «[e]xiste uma unanimidade estrutural dos diagnósticos e em grande medida das terapêuticas. Claro que há contestatários, como se impõe na sociedade mediática, mas aqueles que interessa ouvir dizem o mesmo».

Assim, “tout court” o eminente economista resume o debate à simplérrima dicotomia entre “os que interessa ouvir” e os “outros”. Qual “deus ex-machina” o professor da Universidade Católica lança para o limbo do squecimento as opiniões que lhe não agradam ou não lhe interessam ouvir, não sendo por isso de estranhar que se faça eco das teses apresentadas por Vítor Bento e resuma a questão à simples aplicação das cinco medidas a saber:
  • restaurar a competitividade;
  • redireccionar o investimento público e os incentivos ao investimento privado a favor do sector transaccionável;
  • redireccionar os incentivos à produção, também a favor deste sector;
  • flexibilizar o funcionamento da economia e nomeadamente do mercado de trabalho;
  • reduzir, complementarmente, a procura interna para um nível mais sustentável.
Estas caracterizam-se, ou não proviessem de quem provêem, por camuflar o essencial (a flexibilização do mercado de trabalho e a redução da procura interna) com medidas acessórias que no geral não merecerão uma crítica tão directa.

Nenhum economista minimamente consciente pode deixar de reconhecer que do aumento da competitividade deverá resultar um aumento do produto e do rendimento, nem reconhecer as óbvias vantagens do investimento ser canalizado para os sectores geradores de receita; porém, a realidade económica é bem mais complexa que os subscritores desta estratégia pretendem fazer crer, porque além de existir mais que uma forma de aumentar a competitividade – e a mais eficaz e menos utilizada em Portugal é a do investimento na modernização e automação dos aparelhos produtivos – que não só a simplista redução dos custos do trabalho, também a realidade do tecido industrial nacional é bem diversa da dos países industrializados que Vítor Bento e César das Neves usam como modelo comparativo. Na prática o apelo que estes fazem ao investimento público é a clara confissão daquilo que procuram escamotear – a insuficiência do investimento privado.

Se numa economia desenvolvida e com um tecido empresarial financeiramente sólido pode fazer sentido que o investimento público privilegie os sectores não produtivos (saúde, segurança, etc.), já em economias como a portuguesa este tende a substituir os capitais privados inexistentes ou que os seus detentores preferem canalizar para os “off-shores” enquanto os paladinos da livre concorrência e dos equilíbrios financeiros, esquecendo (ou fingindo esquecer) esta realidade pugnam pela redução dos já de si parcos recursos canalizados pelo Estado para as áreas sociais, privilegiando o conceito neoliberal do “trickle-down economic[1], algo de parecido com o que no tempo do Estado Novo era popularmente designado como a “caridadezinha”.

Na actual conjuntura nacional, onde pontifica a estagnação e o desemprego é crescente, apelar a medidas anti-recessivas que se pautem pelo agravar do rendimento real de quem trabalha em benefício de quem pouco mais investe que os benefícios que recebe do Estado não é apenas uma mistificação técnica do processo económico, é uma indignidade social.

Como o próprio Prof. declarou à revista VISÃO (nº874 de 3 de Dezembro de 2009) a questão salarial não é apenas uma questão de natureza económica mas fundamentalmente de natureza política, ficando assim o problema do aumento da competitividade (nos termos em que foi colocado) resumido à flexibilização do mercado de trabalho (que em linguagem corrente significará aumento na taxa de desemprego, com a consequente degradação das condições de vida de um número crescente de famílias, e aumento do trabalho precário), pelo que não será despiciendo pensar que os próprios autores estarão perfeitamente conscientes dos reais objectivos das suas teses, as quais apontam em última análise para a continuação de uma política orientada para a abertura incondicional das economias domésticas aos mercados internacionais e, consequentemente, a quem o condiciona.

Como a definição das regras de funcionamento daqueles mercados é determinada pelas grandes empresas e pelos seus accionistas (os grandes grupos económicos e umas poucas famílias financeiramente poderosas), forçoso se torna concluir que as teses neoliberais (as tais dos que interessa ouvir, na opinião de César das Neves) mais não fazem que submeter o interesse nacional (e o daqueles que cuja única mercadoria que dispõem é a sua própria força de trabalho) àqueles interesses colocando-nos a todos numa situação de mísera dependência.

Porque, cúmulo do cinismo, os economistas que interessa ouvir (ainda e sempre segundo a abalizada opinião de César das Neves) têm razão quando apontam os inconvenientes das políticas que nos têm conduzido a uma situação em que o endividamento público já se situa em 100% do PIB, mas as soluções que propõem são em tudo idênticas às práticas que nos conduziram àquele estado.

É que mesmo argumentando, como o fazem, de que o investimento público no sector transaccionável deverá gerar os meios para fazer face ao pagamento dos juros da dívida originada pelo investimento, esquecem duas realidades:

  1. estão a aconselhar a realização de investimentos em sectores e empresas em que o Estado deteve significativas participações e de cujas privatizações eles mesmos foram acérrimos defensores;
  2. a principal razão para o endividamento público arrastar qualquer economia para situações como a que a nossa atravessa é o facto dos tomadores dessa dívida serem maioritariamente as mesmas empresas financeiras a quem em tempos os estados entregaram o monopólio da criação de moeda;

que por si só demonstram as insuficiências e contradições de uma solução que não pode ser senão desesperada e, pior, ineficaz.
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[1] A teoria do “trickle-down economic”, particularmente cara às correntes neoliberais e monetaristas, pressupõe que as reduções nos impostos e nas taxas que beneficiem as empresas e os rendimentos mais elevados acabarão por beneficiar indirectamente a generalidade das populações; esta teoria baseia-se no princípio de que as classes de rendimentos mais elevados apresentam maior propensão ao aforro e ao investimento e que este gerará empregos e alimentará o conjunto da economia, enquanto as classes mais baixas, por terem maior propensão ao consumo não gerarão qualquer efeito benéfico.

sábado, 5 de Dezembro de 2009

OLD BLOOD AND GUTS[1]

Após longa e madura ponderação sobre a delicada questão da intervenção norte-americana no Afeganistão, eis que esta semana o presidente Obama, o mais recente prémio Nobel da Paz, anunciou a sua decisão de reforçar o contingente com mais 30.000 soldados e apelou aos restantes aliados da NATO para que reforçassem os seus contingentes[2].

Tanto bastou para reacender a polémica em torno da guerra que a administração de George W Bush iniciou em 2001 a pretexto de perseguir a capturar o presumido responsável pelo atentado do 11 de Setembro, que já custou a vida a mais de 900 soldados norte-americanos, e da qual pouco mais resultou que o aumento da instabilidade na região.

Como se não bastasse o completo fracasso na pretensão de captura de Bin Laden[3], a acção militar teve como principal reflexo a implantação de um novo regime altamente fragilizado e cada vez mais apontado como corrupto, além de ter disseminado a área de influência dos “talibans” para lá da fronteira com o vizinho Paquistão.

Deficientemente preparada e pior organizada, a intervenção no Afeganistão (mesmo considerando o facto desta ter sido organizada a partir de uma estrutura supranacional como é o caso da NATO) teve o condão de evidenciar as ligações do movimento “taliban” com o regime (ou pelo menos com a estrutura militar) do vizinho Paquistão[4] e coloca hoje à administração de Obama mais um problema de resolução complicada, numa região que, ao invés da acalmia precipitadamente anunciada por Bush, regista um recrudescimento de violência que ameaça já a sustentação do próprio governo paquistanês.

A absurda ideia de implantação de democracias mediante o uso da força militar regista não só mais um revés (de que a recente reeleição reconhecidamente fraudulenta de Hamid Karzai é apenas o episódio mais recente) como os efeitos adversos arriscam espalhar-se e envolver os países vizinhos.

Exemplo disso é o recrudescimento da actividade dos extremistas islâmicos na província paquistanesa do Waziristão (estado muçulmano estrategicamente importante por ser detentor de um arsenal nuclear e com conhecido historial de instabilidade política, pois desde a sua fundação tem alternado períodos de ditadura militar com tentativas de consolidação de regimes civis), com o exército de Islamabad a revelar grandes dificuldades na sua contenção a ponto do governo indiano (a outra potência regional com armamento nuclear) já ter começado a transmitir alguns sinais de preocupação, que poderão evoluir até a um maior envolvimento na situação.

Outro factor não menos importante é o facto da produção e distribuição de ópio a partir do Afeganistão ter registado um assinalável acréscimo desde a chegada das forças militares ocidentais.

De um modo geral a questão que a estratégia defendida pelo general Stanley McChrystal coloca é a de saber se o simples aumento do número de soldados será suficiente para resolver a questão afegã.

É que se inicialmente a invasão ordenada por George W Bush era apontada contra a Al Qaeda e o regime “taliban”, a oposição àquela presença militar é hoje principalmente assumida pela etnia “pashtun” (a mesma que conjuntamente com os “taliban” se opôs à invasão soviética iniciada em 1979), facto que poderá estar na origem da reorientação da estratégia norte-americana: dotar “pashtuns” e “tajiques” (o segundo grande grupo étnico) dos meios e da vontade para se oporem com eficácia a uma possível tentativa de recuperação do poder por parte dos “talibans”.

Esta estratégia é tanto mais delicada quanto o próprio Obama lhe fixou um período máximo de vida – 18 meses – findos os quais se deverá iniciar o processo de regresso das tropas americanas.

Mesmo considerando que a fixação de uma data limite foi uma estratégia para consumo interno e principalmente destinada aos opositores à presença militar no Afeganistão, nem por isso esta deixará de ser visto como o erro fatal da nova estratégia. É que mesmo que o prazo venha a ser alargado (como tudo o indica que acontecerá), bastará aos “talibans” resistir até aquela data para poderem reivindicar uma vitória e verem assim reforçada a sua imagem junto dos possíveis apoiantes.

A absoluta falta de liderança na UE e os primeiros sinais de pronta subserviência dados pelos membros europeus da NATO asseguram para já a continuidade à solução decidida por Obama, assim resta-nos esperar para vermos dentro de ano e meio se os EUA e Obama mantém intactas a vontade e a capacidade financeira para suportar o esforço militar, pois os cerca de 100.000 mil soldados norte-americanos que então deverão estar estacionadas no Afeganistão, custarão anualmente ao debilitado orçamento americano 100 mil milhões de dólares. Então veremos se os EUA e os seus financiadores (com a China à cabeça) terão capacidade (ou interesse, atendendo ao facto da presença militar americana na Ásia Central constituir um óbvio entrave à expansão dos interesses regionais da Rússia, do Irão e da própria China) para manter o esforço...
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[1] Alcunha pela qual era conhecido entre os seus soldados o general George S. Patton, comandante do 3º Exército dos EUA durante a II Guerra Mundial, como qual realizou a Operação Cobra e liderou o avanço aliado sobre Berlim.
[2] Embora nas primeiras reacções só se tivesse registado a posição inglesa, mais recentemente a BBC já referia o envio de mais 7.000 soldados; o DN refere mesmo que «PORTUGAL DUPLICA FORÇAS NO AFEGANISTÃO», enquanto cita a opinião do general Loureiro dos Santos que assegura que o país tem capacidade para enviar mais um batalhão de 300 ou 400 homens.
[3] Questão que, conforme esta notícia da FOX NEWS, nos últimos tempos conheceu novos desenvolvimentos depois do Comité de Relações Externas do Senado norte-americano (presidido pelo senador e ex-candidato presidencial John Kerry) ter publicado um relatório que atribui a fuga de Bin Laden a uma má preparação do assalto às montanhas de Tora Bora, organizado pelo então secretário de estado da defesa, Donald Rumsfeld, e pelo comandante militar, o general Tommy Franks.
[4] Para entender este fenómeno bastará recordar que durante o período da invasão soviética, foi através do Paquistão (e principalmente por intermédio dos seus serviços secretos) que os EUA e a CIA canalizaram a ajuda económica e militar aos resistentes afegãos (na época os “talibans” e Bin Laden eram aliados fiéis, quando não criações, da CIA e do SIS).

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

A NOVA DIMENSÃO EUROPEIA

A avaliar pelas notícias dos últimos dias, muito se falará ainda das recentes nomeações para as cúpulas da União Europeia.

Não é só a questão da nomeação de dois perfeitos desconhecidos, como van Rompuy e Catherine Ashton, para duas importantes funções, como a forma de governância que resulta da entrada em vigor do Tratado de Lisboa.

Como se não bastasse termos um tratado que por decisão da nomenclatura política não foi objecto da ratificação popular (e no caso em que a tal foi sujeito, a votação teve que ser repetida a fim de se obter uma aprovação), ainda temos um texto cujos princípios orientadores de marcada tendência neo-liberal se vêem cada vez mais contestados pela realidade político-económica que ajudaram a criar.

E a atestar pelas declarações de Durão Barroso hoje reproduzidas pelo DN, nas quais o actual presidente da Comissão Europeia afirma que o «…Tratado de Lisboa coloca os cidadãos no centro do projecto europeu. Congratulo-me com o facto de termos agora as instituições correctas a funcionar e um período de estabilidade, para podermos concentrar todas as nossas energias na resolução das questões com um interesse primordial para os nossos cidadãos», confirma-se que a nomenclatura política europeia ainda revela a estultícia de comemorar este conjunto de alarvidades e de atropelos democráticos, como se de um grande feito democrático se tratasse.

Enquanto isto, a crise económica mundial continua a dar evidentes sinais de agravamento (veja-se o caso sucedido com a poderosa DUBAI WORLD ou as notícias que dão conta da recente revisão em baixa das perspectivas de crescimento do PIB norte-americano) e as forças políticas mundiais posicionam-se para o que já se antevê como o redesenho da correlação de forças que emergirá após a crise.

Mais do que nunca este é o momento em que a UE precisava de uma liderança esclarecida e objectiva, para disputar com os EUA e a China os termos que o Mundo irá funcionar, mas o que os inqualificáveis dirigentes europeus (aqueles que de uma ou outra forma obtiveram os votos necessários para se alcandorarem nas cadeiras do poder) nos propõem é que aceitemos pacificamente as suas manobras de bastidores e que sujeitemos os legítimos interesses europeus aos seus pequenos prazeres de poder pessoal.

E a melhor prova da incapacidade e falta de qualificação dos van Rompuy, das Catherine Ashton, dos Durão Barroso e, por extensão, da generalidade dos líderes europeus, é que o cada vez mais fragilizado Barack Obama não sentiu a mínima necessidade de articular com os seus parceiros europeus os temos da sua recente deslocação à Ásia para negociações com a China.

Nem o evidente fracasso da iniciativa norte-americana pode servir para esconder a dura realidade que é a do decrescente reconhecimento da importância política duma UE dilacerada pelas suas contradições internas (ainda mais agravadas numa época de crise económica), frágil nas suas estruturas organizativas e quase inexistente na sua representação política.

Quando o mais importante para os principais actores mundiais é a definição de áreas de influência e a marcação de territórios económicos (seria mais correcto falar em mercados dependentes), quando a luta entre a desgastada hiper-potência e as candidatas China, Índia, Rússia e Brasil se agudiza é que a UE, de moto próprio ou por influência exterior, abdica voluntariamente de se fazer representar por alguém dotado das qualidades e da estatura política correspondente à verdadeira dimensão e importância da Europa.

Já não se tratará apenas de uma questão de prestígio, pois decerto ninguém de bom senso acredita que um rato poderá arbitrar (ou decidir) a luta entre dois leões…


...trata-se antes de anunciar ao Mundo que a UE abdica do estatuto internacional que o seu poder económico lhe deveria conferir.

Esta realidade é de tal forma evidente que nem sequer será necessário esperar pelo julgamento das gerações vindouras, pelo que podemos desde já começar a homenagear os nossos dirigentes da forma que eles bem o merecem: com uma monumental pateada…

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

SINAIS (TRISTES) DOS TEMPOS

Os cidadãos suíços acabam de decidir num referendo a proibição da construção de minaretes nas mesquitas erigidas no território da confederação helvética.

Esta decisão, tomada por uma maioria de 57,5% dos eleitores dos 26 cantões que compõem aquele estado, pela sua gravidade e precedente não deve ser encarada da forma leviana, mas sim como uma expressa manifestação de intolerância e, principalmente, de profundo temor pelo que pareça diferente.

Apresentada a referendo por iniciativa da formação política que domina o parlamento helvético – a UDC, formação da direita mais conservadora – e justificada por se tratarem de símbolos político-religiosos, a iniciativa (e o resultado) ganha acrescidos foros de importância e de significado político quando na mesma oportunidade foi também referendada uma proposta para a proibição da exportação de armamento, apresentada por uma organização antimilitarista (o Grupo para uma Suíça sem Armas), cuja rejeição reforça a ideia de que na consulta terão prevalecidos argumentos pouco humanistas e de natureza xenófoba e proteccionista...

...que, há evidência, nem o humor com que foi por vezes abordada a campanha para o referendo...

...conseguiu disfarçar a carga profundamente negativa do resultado.


Pior, a intolerância revelada pelo eleitorado suíço está já a provocar ondas de choque noutros países europeus. A avaliar por esta notícia do LE MONDE, formações políticas da direita populista belga e holandesa já anunciaram idênticas intenções, reforçadas por declarações como as que aquele jornal atribui ao deputado flamengo Filip Dewinter, que preconiza «...dar aos muçulmanos um “sinal de que devem adaptar-se à nossa maneira de viver e não ao contrário”».

Embora num terreno especialmente do agrado dos movimentos populistas, minado pelo preconceito, por hipotéticas clivagens de natureza religiosa e particularmente propício a exacerbamentos e a radicalizações, está aberto o campo para o debate sociológico. Caberá a saída a terreiro de todos os que ainda defendem o direito à diferença e à liberdade individual.

sábado, 28 de Novembro de 2009

NAUFRÁGIO À VISTA?

A atestar pelas notícias difundidas pelo FINANTIAL TIMES e pela BBC NEWS poderá estar eminente um novo alerta geral à esfera financeira mundial.

O poderoso consórcio do Dubai – DUBAI WORLD, que congrega um universo de empresas orientadas para quatro grandes áreas de actividade: Transportes e Logística, Construção Naval, Desenvolvimento Urbano e Investimento e Serviços Financeiros, com especial destaque para a NAKHEEL, empresa do ramo imobiliário responsável pelo extravagantes projectos «The Palm» e «The World»[1], e a DP WORLD, empresa do ramo portuário que depois de adquirir a britânica P&O passou a assegurar a gestão dos principais portos norte-americanos[2] – acaba de solicitar uma moratória de seis meses para o pagamento dos juros dos empréstimos obrigacionistas, no montante de 4 mil milhões de dólares, por si titulados e pela NAKHEEL (ramo imobiliário) e que se vencem no próximo mês de Dezembro.

Depois dos impensáveis naufrágios dos grandes bancos americanos (LEHMAN BROTHER, BEAR STERNS, INDYMAC) e depois que começaram a ser divulgadas animadoras notícias de recuperação das principais economias, eis que surge duma das regiões tida como mais forte, um evidente sinal de que algo continua podre no reino da alta finança.

E o mais preocupante pode nem ser o anúncio das dificuldades que o consórcio atravessa, pois alguns sinais já tinham começado a passar para a imprensa quando foi anunciada a suspensão dos projectos «The Palm» e «Burj Dubai» (que era previsto transformar-se na construção mais alta do Mundo, pois os seus 800 metros quase duplicariam os 509 metros da Taipei 101)...

...devido a dificuldades de financiamento, mas sim o facto da moratória agora proposta significar que nem as finanças do Emirato do Dubai, nem as do ainda mais poderoso Emirato do Abu Dhabi, apresentam condições para resolver a situação.

A ironia de tudo isto (se é que se pode falar de ironia neste meio) é que o presidente do grupo agora à beira da falência, Ahmed bin Sulayem, não revelou o mínimo pejo ou contenção quando há pouco mais de um ano (em Março de 2008) ameaçou os dirigentes europeus de retirar todos os investimentos do conglomerado na Europa caso a UE aprovasse medidas para tentar controlar a actividade dos chamados Fundos Soberanos[3].

O mínimo que seria de esperar é que os mesmos dirigentes lhe respondessem agora em idênticos termos e que entendessem de uma vez por todas a urgência na aprovação de regras de apertado controlo sobre a actividade e a transferência de capitais, tanto mais que a situação de incumprimento não afectará apenas o conglomerado DUBAI WORLD, mas também o próprio Dubai, o vizinho Abu Dhabi e o conjunto dos Emiratos Árabes Unidos. Prova disto mesmo é o teor desta notícia do THE ECONOMIST que dá conta da pronta subida do preço (cerca de 130 pb) dos CDS[4] sobre a dívida do Dubai e da imediata descida da notação de “rating” atribuída à dívida do país.

No mínimo, as aparentes dificuldades dos Emiratos Árabes Unidos, de que o Dubai e o Abu Dhabi são dois dos sete membros e os mais importantes, pode ser entendido como um claro sinal das grandes dificuldades que as economias mundiais ainda atravessam e da crescente insustentabilidade de um modelo de desenvolvimento económico assente na internacionalização dos capitais e num sistema financeiro suportado numa única moeda – o dólar americano – cuja economia se apresenta cada vez mais fraca e dependente para sustentar o respectivo valor.

Depois da quase falência da Islândia, pequeno território insular cuja modernização económica foi realizada à custa de um processo de enorme exposição financeira, das dificuldades que ainda atravessam as economias britânica e irlandesa, fortemente abaladas pelo rebentamento da bolha do imobiliário, eis que agora surge mais esta notícia e relativamente a uma economia também ela baseada na terciarização e na especulação imobiliária o que constitui uma boa evidência de que a fase mais profunda da crise ainda não chegou.
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[1] O projecto em causa consiste na construção de um conjunto de ilhas artificiais que vistas do ar têm a configuração uma palmeira ou do mapa mundo; este e outros projectos igualmente megalómanos podem ser consultados no endereço da empresa promotora.
[2] Sobre a polémica em torno da tomada de controlo dos portos norte-americanos pela DP WORLD, ver o “post” «RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE?»
[3] Fundo Soberano é um fundo de investimento cujo capital é detido por um estado soberano, normalmente em resultado de balanças de pagamentos superhavitárias.

[4] A sigla CDS ou o termo “credit default swap” designa um contrato de “swap” no qual o vendedor assegura ao comprador o pagamento de um instrumento de crédito (normalmente uma obrigação); por haver lugar ao pagamento de um prémio que assegura o bom pagamento da dívida este tipo de contrato é muitas vezes comparado a um seguro.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

É DIFÍCIL LEVAR A SÉRIO...

Na sequência das notícias da morte de fetos após a aplicação da vacina contra o H1N1 (gripe suína na versão inicial), eis que surge na imprensa a informação de que a «Agência do Medicamento não encontra ligação entre vacina da gripe A e mortes fetais», facto que deveria funcionar como tranquilizante para as populações, não fora a sucessão de notícias contraditórias.

Assim, o mesmo jornal PUBLICO que difundiu aquele esclarecimento escreve também que «
Reacções alérgicas graves forçam retirada de lote de vacinas no Canadá» enquanto vai dizendo que « Vacina contra gripe A encomendada por Portugal divide autoridades suíças», deixando os seus leitores tanto mais confusos quanto é dado estatístico que «Portugal já registou pelo menos 14 mortes por gripe A», número que se encontra, felizmente, muitíssimo longe dos milhares de mortos estimados com base nos avisos e nas declarações de pandemia da OMS.

Tudo isto apenas reforça a ideia de que toda a agitação em torno da pandemia deverá ter outros interesses que não apenas o da protecção dos cidadãos e pior, constitui uma prova cabal da reduzida credibilidade que as populações atribuem aos organismos e às entidades públicas que é suposto zelarem pela sua segurança.

Se a cada vez mais evidente subordinação do interesse público aos interesses privados (de que o caso da rede de subornos montada por um empresário do sector do tratamento de resíduos junto de responsáveis de empresas públicas é apenas o que mais recentemente chegou ao conhecimento público) e a aparente facilidade e impunidade de que gozam os responsáveis pela gestão da coisa pública é outro importante factor para a ampliação de todo o tipo de suspeitas e desconfianças relativamente às mais inócuas decisões, que esperar de situações como a da decisão de iniciar um processo de vacinação ao qual muitos dos técnicos de saúde levantam sérias dúvidas?

Queira-se ou não, estas parecem cada vez mais fundadas pois não só a famigerada epidemia tarda em assumir a dimensão vaticinada pelos organismos oficiais e a época invernosa no hemisfério Sul decorreu sem que tal fenómeno por lá se tivesse verificado, como as opções tomadas pelos organismos de diferentes países (de que é excelente exemplo a notícia do JORNAL DE NOTÍCIAS que diz que para as grávidas foi escolhida uma «Vacina diferente em Espanha») não contribuem minimamente para tranquilizar ninguém.

Neste capítulo da aparente contradição destaque-se o teor dos últimos comunicados do INFARMED, que no mesmo dia em que anunciou as conclusões da análise efectuada pela Agência Europeia do Medicamento aos «...dados mais recentes sobre as vacinas contra a gripe pandémica H1N1, aprovadas por aquela agência (Celvapan, Focetria e Pandemrix)», segundo a qual foi «...reportado um pequeno número de casos de síndroma de Guillain-Barré e de morte fetal em pessoas previamente vacinadas com a vacina pandémica. Embora a EMEA continue a avaliar a toda a informação relevante, a avaliação efectuada continua a não evidenciar ligação entre estes casos e a administração da vacina», dava conta noutro comunicado que por mera «...medida de precaução e zelo da saúde pública» ordenou a suspensão imediata de venda de alguns lotes do medicamento BEN-U-RON Xarope (paracetamol) por apresentarem «...uma alteração da tonalidade da cor respectiva...». Note-se que os óbitos e os casos ocorridos de reacções adversas à vacina contra o H1N1 são anunciados como não relevantes, mas perante uma ligeira alteração da cor dum medicamento (que por acaso é o mais utilizado nas prescrições para o tratamento de síndromas gripais) e sem que se tenha registado qualquer caso de reacção adversa, aquele organismo não hesitou na determinação da suspensão da venda.

Este aparente desnorte (ou pelo menos um evidente descontrolo), repete-se quando lemos notícias como esta: «Hospital de Guimarães lotado com suspeitas de gripe A», do CORREIO DA MANHÃ, ou esta; «Horas de espera na sala de isolamento de Guimarães» do JORNAL DE NOTÍCIAS, que poderão ser reveladoras do estado de pandemónio (tanto mais que um dos seus directores declarou aos microfones de um canal televisivo que teria havido uma situação de redução do quadro de pessoal nas urgências e algum exagero nas reacções) mas dificilmente comprovarão a existência da tão almejada pandemia.

domingo, 22 de Novembro de 2009

O QUE OBAMA FOI FAZER À ÁSIA

Terminado o périplo asiático que levou Barack Obama a vários países do continente asiático, com objectivos de natureza estratégica mais ou menos precisos, como seja o do reforço das relações com um Japão que conhece um governo um pouco menos receptivo aos interesses americanos que o habitual, o da normalização dos laços económicos com os países da ASEAN[1], o da questão nuclear com a Coreia do Norte e, principalmente, as relações económicas com a China.

A parte reservada ao relacionamento com o Império do Meio, sendo a mais importante é também a mais polémica; seja porque historicamente este relacionamento nunca foi fácil, seja porque a dependência americana do financiamento chinês é cada vez maior, a ponto de questões de natureza político-militar terem que ficar em “stand-by”.

Embora as primeiras notícias e as reacções sobre os resultados das conversações entre Obama e Hu Jintao sejam ainda escassas e demasiado cautelosas, pode-se já assegurar que aquela que poderia (deveria, no entender de muitos analistas económicos[2]) ter sido a questão base – a política monetária chinesa que persiste em manter uma moeda demasiado desvalorizada e associada ao valor do dólar norte-americano, provocando um enfraquecimento da economia americana e o crescimento das exportações chinesas – não foi objecto de discussão talvez por Washington temer demasiado qualquer perturbação no fluxo financeiro chinês que assegura o funcionamento do seu sistema financeiro, que mais não seja através da dívida pública que têm adquirido em grandes quantidades[3].

Por outras palavras, Obama e Hu Jintao poderão ter chegado a acordo em questões em que haja coincidência de interesses, como o adiamento de novas e mais significativas medidas de combate à poluição[4] que pudessem vir a resultar da próxima Conferência Sobre o Clima que terá lugar em Copenhaga, mas nunca em matérias que possam introduzir perturbações nos grandes negócios que continuam a ocorrer em Wall Street[5].

O receio de que a China suspenda a compra da dívida pública norte-americana, nos montantes em que o tem vindo a fazer ou de que exerça qualquer tipo de pressão financeira sobre a moeda americana é tão grande que até a evidente política armamentista chinesa[6] terá passado à margem dos contactos efectuados.

Mergulhada em pela crise económica, a América de Obama (e não o próprio Obama com refere Bernardo Pires de Lima nesta crónica publicada no I) com um aparelho produtivo deslocalizado, em benefício exclusivo dos grandes investidores, uma população sustentada por uma espiral de endividamento, financiada pelos excedentes comerciais gerados pela economia chinesa, é muito mais frágil do que o Mundo pensa.
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[1] A Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) é uma organização regional de estados do sudeste asiático, fundada em 8 de agosto de 1967, pela Tailândia, Filipinas, Malásia, Singapura e Indonésia, conta actualmente com 10 membros (aos fundadores juntaram-se o Brunei, o Vietname, Mianmar, o Laos e o Camboja) que têm como objectivo a criação de uma zona de comércio livre.
[2] Entre estes conta-se Paul Krugman que deixou bem claras as susa ideias no artigo «UM MUNDO DESEQUILIBRADO» recentemente publicado no jornal I.
[3] Algumas fontes estimam que a China deterá cerca de 800 mil milhões de dólares só em obrigações do tesouro americano.
[4] Não esquecer que os EUA e a China são responsáveis em conjunto por quase 40% da poluição mundial.
[5] Exemplo disso mesmo é este artigo publicado no Wall Street Journal da autoria do secretário de estado do tesouro, Timothy Geithner, e dos ministros das finanças da Indonésia e de Singapura.
[6] Actualmente a China disporá de umas forças armadas com cerca de 7,5 milhões de homens (o terceiro maior exército mundial, atrás do Irão, com 12 milhões, e do Vietname com 9 milhões) mas o facto mais importante é que o seu orçamento, estimado em 80 mil milhões de dólares (só ultrapassado pelos mais de 600 mil milhões dos EUA), tem vindo a cresce a uma taxa anual de 10%.